Terça-feira, 19 de Maio de 2015

Outras Situações - O Ressuscitado

 

E porque nem só do Pilão, da AM ou do Exército vivem as memórias, trago-vos hoje algo diferente........

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Em Agosto de 1993, estando eu a gozar férias no Algarve, fui com uns amigos tomar uns copos na noite de Portimão. No regresso, altas horas da madrugada, antes de chegar às Caldas de Monchique, e após uma pronunciada curva à direita, apercebemo-nos que algo não estava bem, nomeadamente com uma viatura por que tínhamos passado.

O condutor resolveu dar meia volta e só então percebemos o que tinha acontecido: um Renault 5, aparentemente com dois ocupantes a bordo, havia chocado de frente com um enorme eucalipto, parecendo ter abraçado o mesmo. O condutor, literalmente esmagado entre o seu banco e o volante, contorcia-se com dores. Já o indivíduo que circulava no lugar do pendura, apesar de também se encontrar preso entre o banco e o tablier, aparentava estar bem, e queria livrar-se daquela sua prisão. Nunca mais me esquecerei do cheiro da gasolina, misturada com outros cheiros, (mistura esta precipitada pelo acidente), que se podiam sentir no ar.

Era hora de tomar decisões e assim, o nosso amigo que vinha a conduzir, dirigiu-se até à Vila, por forma a ir buscar auxílio nos Bombeiros. Eu e outro amigo, ficámos por ali, a ver o que podíamos fazer. Ao tentar auxiliar o pendura a saír do carro, apercebemo-nos da presença de um terceiro elemento, deitado numa posição estranha entre os bancos da frente e os bancos de trás. Como a cabeça dele estava literalmente debaixo do banco do pendura, refreámos o pendura na sua aflição de saír do local, por forma a que ele deixasse de exercer pressão no banco, caso contrário, complicaria bastante a situação do terceiro elemento.

Dada a posição pouco ortodoxa em que o terceiro passageiro se encontrava, não seria, de todo, desejável que o mesmo fosse de alguma forma manipulado, a não ser por uma equipa especializada, não fosse sofrer de algum dano que pudesse vir a ter

consequências mais gravosas. Mas como o pendura insistia na sua ânsia de sair do carro, prestei-me a abordar o terceiro elemento. Nessa altura, reparei que o chão do carro era uma pasta ensanguentada, originada por este terceiro elemento. Ainda assim, tomei-lhe o pulso, por forma a determinar se tinha ou não pulsação. Nada…. Fui então palpar o pescoço, do lado esquerdo, a tentar detectar pulsação na artéria jugular. O mesmo resultado…. Uma e outra vez, no pulso, no pescoço, junto à carótida, e nada….. nem quis acreditar que tal coisa estaria a acontecer, e tinha que me calhar logo a mim, ter dado de caras com um indivíduo já falecido . Transmiti esta informação ao outro meu amigo, sem que os dois encarcerados se apercebessem do teor da nossa descoberta, (não fossem entrar em pânico ou ter uma qualquer reacção que seria tudo menos desejável naquele momento), e decidi-me então por puxar o falecido para cima do banco de trás, por forma a que pudéssemos fazer alguma coisa pelos outros indivíduos da frente. Colocando o nosso pesar de lado, auxiliámos o pendura a saír do carro, o qual acabou por se sentar no chão, apenas dorido pelo efeito da colisão, e fomos para junto do condutor, animando o mesmo o melhor possível pois, dado que o mesmo se queixava com fortes dores nas costas, seria de todo imprudente, com a nossa falta de meios e

principalmente, de conhecimentos, auxilia-lo a sair da posição em que se encontrava a qual, apesar de incómoda, acabava por lhe dar alguma estabilidade.

Passados uns momentos, apercebemo-nos de um vulto junto ao carro. Olhámos para o interior do carro, não vimos ninguém no banco de trás e aí concluímos que o indivíduo que minutos antes havia sido dado como morto, caminhava desamparado e a cambalear. Ficámos atónitos. O morto havia-se levantado do carro……

Dirigi-me de imediato a ele, amparando-o, e levando-o a sentar-se com as costas direitas e encostadas a uma árvore. Só nessa altura vi a cara dele, totalmente ensanguentada, com sangue coagulado pendurado do sítio onde deveria ser o seu nariz, e ouvi a sua respiração, ofegante, profunda e com um ruído bastante desagradável. Mantive-me junto dele, principalmente para evitar que ele adormecesse, até que chegou ao local a equipa de emergência que o nosso amigo havia alertado, já na vila. Tomaram conta da ocorrência e levaram os três sinistrados para o hospital de Portimão.

Mais tarde vim a saber que o condutor tinha umas quantas costelas partidas, mas nada demasiado grave, o pendura tinha sofrido só umas escoriações, e que o terceiro elemento, tinha entrado em coma, situação essa que durou cerca de dois ou três dias, tendo posteriormente sido submetido a uma cirurgia à face, tendo também, ferimentos ao nível das costelas, mas acabando por ficar relativamente bem.

Nunca mais me esquecerei deste episódio… principalmente pelo facto de, apesar de todas as minhas diligências para determinar a condição do indivíduo do banco de trás me terem levado a concluir que ele estaria morto quando, na realidade…..

Acho que nunca saberei exactamente o que aconteceu……

 

 

 

publicado por Sweet Sex Teen às 17:08
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